Reunindo testemunhos de mulheres que atuam pela conservação da biodiversidade no Brasil, o Cepan celebra a data enfatizando a importância da igualdade de gênero na área
Em 2020, o Fórum Econômico Mundial (WEF) estimava uma média de 99,5 anos para se atingir a igualdade de gênero no mundo. Devido à pandemia, essa previsão cresceu para 135,6 anos, segundo o 15º Relatório Anual de Disparidade de Gênero da instituição, lançado em março passado. O documento aponta o Brasil em 93º lugar entre 156 países no quesito paridade de gênero. Os dados, à luz deste Dia Internacional da Igualdade Feminina (26/08), mostram que, apesar da presença expressiva das mulheres no mercado de trabalho, ainda há muito a ser feito.
Uma leitura do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre o ano de 2019, também divulgada em março, aponta que, naquele ano, 54,5% das mulheres com mais de 15 anos compunham a força de trabalho do Brasil, enquanto o percentual de homens era de 73,7%. Um cenário díspar, advindo de questões históricas – até a década de 1930, mulheres não podiam votar; até os anos 1960, elas só podiam trabalhar com autorização do marido. Só com a Constituição de 1988 que surgiu a igualdade em direitos legais, a qual, muitas vezes, não acontece na prática.
No âmbito da restauração florestal, a presença da mulher já é uma realidade. Histórica e estruturalmente, a cadeia de restauração florestal gira em torno dos interesses de uma sociedade patriarcal. Ainda há muitas mulheres fora de posições de liderança, trabalhando mais com coleta de sementes e produção de mudas. Mulheres e crianças também são os principais atingidos pelos efeitos climáticos oriundos da degradação dos ecossistemas, mas nem sempre são os beneficiados diretos dos projetos de restauração.
Não foi à toa que a Organização das Nações Unidas (ONU), ao estabelecer os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), estipulou a igualdade de gênero no ODS 5, entendido como um dos elementos fundamentais para a construção de um mundo mais pacífico, saudável e sustentável, com redução de violências e discriminações motivadas por gênero. Neste Dia Internacional da Igualdade Feminina, o que mulheres que atuam na restauração florestal Brasil afora pensam em alternativas para transformar essa realidade?
A contribuição do Cepan – No Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste (Cepan), a equidade de gênero na restauração é uma pauta levada a sério. A instituição sempre busca incentivar a força de trabalho feminina, incluindo mulheres tanto em seu corpo institucional quanto nos projetos. Hoje, a instituição conta com uma equipe profissional formada em 80% por mulheres, atuantes em atividades de campo, coordenação, planejamento e tomadas de decisão. Uma forma de promover inclusão e justiça social na busca pela paridade.
“Tudo se inicia no processo seletivo, pois o Cepan estimula a diversidade étnica, racial, de orientação sexual e de gênero em sua equipe, incentivando que profissionais que se encaixem nos perfis procurados se inscrevam. Nossa gestão valoriza essa diversidade, propiciando que as profissionais sejam inseridas nos espaços de debates, dando a elas a autonomia e o protagonismo à altura de seus excelentes desempenhos técnicos apresentados”, comenta Cristiane Lucena, Diretora Executiva do Cepan.
Nessa linha de frente, o Cepan busca estudar e promover estratégias para trazer a presença feminina em seus projetos. No Curso de Restauração Ecológica para a Caatinga, por exemplo, realizado entre maio e junho passados, para público da região da Chapada do Araripe, 60% das vagas foram destinadas a mulheres. O objetivo foi capacitar o público majoritariamente feminino de modo a inseri-lo na cadeia produtiva da restauração na região. Já na restauração da Mata Atlântica no município de Aracruz/ES, o projeto ocorre com a atuação de 62 coletores de sementes indígenas, sendo 52 mulheres das etnias Tupiniquim e Guarani.
“As mulheres têm trazido olhares diferenciados e mais sensíveis às problemáticas ambientais enfrentadas, então tê-las participando em nossas ações e projetos traz mais diversidade nas resoluções. Ainda precisamos, muitas vezes, estipular participação feminina mínima de 50%, pois os públicos que atingimos sempre foram majoritariamente masculinos. Com isso, temos percebido bons ganhos e interações nesse novo formato de atuação nos projetos do Cepan”, elucida Cristiane.
Confira testemunhos de outras mulheres que atuam na restauração florestal sobre a equidade de gênero na área:
Emanuelle Souza – Cepan

“É preciso olhar para a cadeia da restauração como um todo, e entender que, para além dos aspectos ecológicos, a restauração tem seu sucesso vinculado à variável humana. A temática de gênero, apesar de muitas vezes ser negligenciada, tem implicações em diversos elos dessa cadeia. Em campo, principalmente em áreas rurais, ainda observamos a divisão cultural de trabalho entre homens e mulheres e outros tipos de segregação de gênero que impedem uma maior participação feminina e, ainda, uma independência dessas mulheres do campo. O caminho para se desprender dessas amarras, ao meu ver, é fortalecer as iniciativas que promovem liderança feminina, estimular maior participação feminina em ferramentas que geram empoderamento, como capacitações, conselhos participativos e outros mecanismos de tomada de decisão.”
Bárbara Cavalcanti – SAVE Brasil

“Vejo que dentro do nosso campo de atuação já existe uma preocupação em garantir a equidade de gênero e assegurar que as vozes femininas sejam, de fato, ouvidas. Mais ainda, não é tão raro encontrar mulheres ocupando posições de liderança nas organizações e movimentos ligados à conservação/restauração florestal. Ainda bem! Que possamos, cada vez mais, abrir as portas para que novas lideranças femininas ocupem estes espaços, representando a diversidade de vozes femininas e pautando questões ligadas à equidade e gênero e à conservação da biodiversidade.”
Danila Moraes Soares – Grupo de Coletores de Sementes Tupiguá (Aracruz/ES)

“A igualdade feminina dentro da conservação e restauração está sendo muito boa e fundamental, pois a mulher está, cada vez mais, atuando na mesma proporção que o homem. As mulheres indígenas já trazem isso dentro delas, porque desde pequenas, nós, mulheres, semeamos e colhemos, então já temos desde sempre um olhar diferente para natureza, tanto para preservar quanto para plantar.”
Ludmilla Pugliese Siqueira – Pacto pela Restauração da Mata Atlântica

“A análise da equidade de gênero em projetos de restauração florestal deve ser feita em diferentes direções e dimensões. Pensar, do micro ao macro, na presença das mulheres nos diferentes níveis de atuação – participando de todos os elos da cadeia produtiva, desde a coleta de sementes até planejamento e finalização de atividades; integrando posições de liderança e participando de decisões políticas na sociedade e dentro das instituições; e também na repartição dos benefícios dos projetos, pensando nas proprietárias rurais e na sociedade como um todo. Diversos estudos mostram que a diversidade e a inclusão é positiva e benéfica em termos de eficácia e eficiência nos projetos, além de ser uma questão de justiça social.”
Cinthia Lima – analista em Gestão Ambiental da Agência Estadual de Meio Ambiente de Pernambuco (CPRH)

“Estudos já demonstram que a busca pela sustentabilidade tem um recorte de gênero importante, já que as atividades desenvolvidas por mulheres em comunidades tradicionais, em geral, são mais sustentáveis do que aquelas exercidas por homens. É como se as mulheres entendessem melhor a natureza, seus ciclos e nossa dependência dela. A questão é que a sociedade atribui muitas outras tarefas a mulher, principalmente domésticas e de cuidados parentais, que dificultam o acesso delas a empregos formais. Infelizmente, isso não é muito diferente na conservação e restauração. Acredito que precisamos dar oportunidades garantindo condições de trabalho e salariais equiparados entre homens e mulheres, derrubando por terra o discurso retrógrado e falacioso de que custa caro contratar mulheres.”
Fátima Piña Rodrigues – professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

“Em geral, são atribuídas às mulheres funções na produção de mudas, coleta e identificação de sementes. Papéis pré-definidos por meio de um processo de preconceitos, que entende a mulher como mais frágil. Na verdade, o papel da mulher na restauração/conservação é aquele no qual ela deseja atuar. E, para isso, é muito importante que haja um processo de formação. O ser feminino e as crianças são os primeiros a sentirem os impactos das mudanças ambientais, respondendo com engajamento e sensibilidade, e por isso são capazes de atuar na área. É preciso gerar mudanças em políticas públicas, para valorizar e tornar visível o papel feminino na sociedade, e também incluir as mulheres nas atividades de restauração, permitindo que sejam livres para participar de todas as etapas do processo.”
Mariana Oliveira – WRI Brasil

“As agendas ambientais trazem aspectos físicos e ecológicos essenciais no desenvolvimento de estratégias para dar escala à restauração, mas não são suficientes para responder à complexidade dos desafios em campo. Ainda precisamos avançar na avaliação de como mulheres e os homens são afetados por políticas, programas, projetos e ações. Ainda é necessário reconhecer que promover a igualdade feminina pode aumentar significativamente a eficiência de um projeto de restauração. Considerando que a maioria da população é composta de mulheres, tê-las representadas nos diversos espaços e posições é retratar a demografia de nossa sociedade. Precisamos ir além: falar, aprender, questionar, acolher, reconhecer, errar, corrigir, abrir mão, valorizar e dar espaço. E assim seguir avançando rumo ao reconhecimento das diferentes visões e interesses, a dimensão humana por completo.”




