Abordagem centrada nas necessidades da população aumenta chances de sucesso da restauração de biomas
Inovadora, simples, direta e útil: assim os pesquisadores das biociências Felipe Melo, Hudson da Silva, Cristina Baldauf e Gabriel da Costa descrevem a restauração biocultural, que combina o conhecimento científico às demandas das populações que vivem em áreas à serem restauradas. Os achados dos pesquisadores, que atuam na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), na Universidade de Nottingham Tren (Reino Unido), e na Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA) foram divulgados na Conservation Biology, revista científica que está entre as mais respeitadas da área. O texto pode ser acessado aqui.
Os autores foram a campo em Açu, no Rio Grande do Norte, região de Caatinga a pouco mais de 200km de Natal, para dar o primeiro passo da restauração biocultural: ouvir as pessoas. “A restauração é uma das ferramentas mais importantes para a conservação da biodiversidade”, escreveram no artigo, “mas a participação das comunidades no planejamento da restauração precisa ser melhorada”.

Felipe Melo, um dos autores do estudo publicado na Conservation Biology
Com isso em mente, entrevistaram 46 famílias, questionando-as sobre as espécies arbóreas que poderiam compor a restauração vegetal da região – Açu e seus arrabaldes sofrem com o desmatamento decorrente da expansão urbana e agropecuária, das atividades industriais e da proliferação de unidades fotovoltaicas e termelétricas.
O intuito era inventariar as espécies preferidas dos moradores e compreender, a partir de modelos científicos que simulam sistemas produtivos agroflorestais, se a conservação da biodiversidade poderia caminhar junto do bem-estar das comunidades.
Diferentes variáveis foram levadas em conta: a quantidade de água demandada por cada espécie, suas funções no processo de restauração da floresta, capacidade de capturar luz, quantidade de gases trocados com a atmosfera, taxas de crescimento, resistência aos períodos de seca e longevidade das árvores, entre outras características importantes para o funcionamento dos ecossistemas.
Os resultados apontaram as 35 espécies favoritas dos açuenses entrevistados, 21 das quais são nativas da Caatinga. Porém, quase todas as espécies não-nativas, têm baixo potencial invasivo, ou seja, não inviabilizam as espécies locais, podendo desempenhar um papel importante na restauração da região. E mais: as espécies escolhidas estão ligadas à segurança hídrica, alimentar, energética e econômica dos moradores, tratando-se de árvores frutíferas, de arbustos com potencial medicinal ou que servem de alimento para as cabras ali criadas, e ainda de espécies passíveis de tornar-se lenha para abastecer os fogões ou serem comercializadas.
Tomando como área de referência a Floresta Nacional de Açu, Unidade de Conservação que engloba mais de 215 hectares de Caatinga preservada, e comparando-a com reflorestação hipotética sugerida pelos moradores, os pesquisadores chegaram à conclusão de que a abordagem da restauração biocultural pode auxiliar tanto na conservação da natureza quanto na lida diária de quem vive nesses locais.
“Do ponto de vista ecológico, ela pode promover o aumento da biodiversidade e aprimorar as funções ecológicas das áreas restauradas, como a melhoria da qualidade do solo e o aumento da resiliência a eventos extremos, como secas. No contexto social, pode criar oportunidades econômicas, reduzir índices de pobreza e contribuir para a segurança alimentar das populações, que representam grandes desafios nas regiões semiáridas”, concluem os pesquisadores.
Acompanhe, no gráfico abaixo, um modelo resumido da abordagem da restauração biocultural:

Listagem de espécies vegetais consideradas importantes pela população local e sistemas simulados por pesquisadores unem ciência a demandas populares na restauração de biomas
Pesquisador no Centro de Biociências da UFPE, Felipe Melo, um dos autores do estudo, comenta as vantagens da restauração biocultural: “O nosso achado mais importante é que as pessoas, ao selecionarem as espécies que atendem às suas necessidades, terminam por recuperar a diversidade funcional da Caatinga. Essa é a dimensão da diversidade que está correlacionada com os benefícios que os seres humanos recebem do bom funcionamento da natureza. Portanto, a diversidade funcional de um ecossistema recuperado para as pessoas locais ajuda recuperar as funções do ecossistema e a manutenção de sua saúde.”
O Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste (Cepan), que há mais de 24 anos atua na execução de projetos de conservação da natureza, considera fundamental envolver os atores locais para garantir o sucesso de processos de restauração.
Pedro Sena, coordenador Técnico do Cepan, detalha que as abordagens de restauração usadas pelo Centro consideram a participação popular de diferentes formas. “Alinhamos com as pessoas envolvidas o que elas esperam daquela área, quais espécies gostariam de ver novamente no ecossistema, para compreender se esses usos são compatíveis com os usos sustentáveis do bioma em questão (e quase sempre são). Procuramos absorver ao máximo essas informações na execução da restauração. Esses processos colaborativos, que trazem o protagonismo para as comunidades, são um diferencial que aumenta a chance de sucesso da restauração, um benefício de todos”.
Para acompanhar as ações de restauração florestal conduzidas pelo Cepan, siga-nos nas redes sociais!



