Curso virtual finalizado neste mês de junho visa estruturar a cadeia produtiva da restauração florestal na localidade para frear processos de desertificação do bioma
Ações do Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste (Cepan) na região da Chapada do Araripe trazem expectativa de recuperação para um dos biomas mais degradados do Brasil. O Curso de Restauração Ecológica para a Caatinga, finalizado neste 16 de junho, às vésperas do Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca (17/06), dá o pontapé inicial para estruturar uma cadeia produtiva da restauração florestal na região e implementar ações para frear processos de desertificação diagnosticados no bioma.
De acordo com análises da instituição, o estado de Pernambuco perdeu quase metade de sua vegetação nativa de Caatinga, e cerca de 20% das áreas restantes enfrentam ou estão suscetíveis à desertificação. Isto é – áreas que antes abrigavam flora e fauna únicas se convertem cada vez mais em usos de solo alternativos. “A Caatinga é hoje um dos biomas que mais sofrem os efeitos negativos das mudanças climáticas, alterando o regime de precipitações e estendendo períodos secos”, explica Joaquim Freitas, coordenador geral do Cepan.
Outro dado alarmante é referente à ocupação do solo – quase 40% do território do bioma é ocupado por atividades agrícolas e por pastagens. O fator antrópico, quando há uma utilização de forma não sustentável, acelera os processos de desertificação, removendo nutrientes do solo e reduzindo a cobertura vegetal nativa. Em consequência, o potencial hídrico do bioma foi reduzido drasticamente, e espécies endêmicas, como a ave Soldadinho-do-araripe (Antilophia bokermanni), se tornaram ameaçadas de extinção.

Soldadinho do Araripe, ave endêmica da região da Chapada e ameaçada de extinção (Foto – Fábio Nunes)
“Isso é um fator de preocupação. É importante que a prática agrícola esteja associada a um uso sustentável dos recursos naturais, visando evitar a expansão das fronteiras de desertificação no bioma,”, alerta o coordenador. A saída para reverter esse quadro é desenvolver ações de restauração ecológica, de modo a trazer de volta a cobertura vegetal do bioma e possibilitar a sua regulação, com recuperação de nascentes e proteção a espécies ameaçadas.
Para isso, o Cepan vem implementando, desde abril de 2020, o Projeto de Recuperação de Áreas Degradadas na Chapada do Araripe, que, através de diversas frentes, visa recuperar 100 hectares de áreas de Caatinga entre os estados de Pernambuco, Ceará e Piauí, abrangendo duas Unidades de Conservação (UCs) – a Área de Proteção Ambiental (APA) Chapada do Araripe e no entorno da Floresta Nacional (FLONA) do Araripe-Apodi.
Após planejamentos, mapeamentos e visitas de campo, as primeiras atividades práticas de restauração na região iniciaram em janeiro de 2021 e seguem em curso. No entanto, para potencializar os resultados, o Curso de Restauração Ecológica na Caatinga, iniciado em maio passado, funcionou como um processo híbrido – além de promover um desenvolvimento de capacidades a pessoas interessadas em atuar pela restauração da Caatinga, a iniciativa atuou como uma ferramenta de mobilização para estruturar uma cadeia produtiva em restauração florestal específica para a localidade.

Princípios de Restauração Ecológica foram repassados para conter avanço da desertificação na Caatinga
Em uma formação inédita, virtual e gratuita, 40 atores envolvidos em temáticas de restauração na região da Chapada do Araripe foram capacitados com conhecimentos de base fornecidos pela equipe técnica do Cepan e especialistas convidados. Agora, a instituição estuda realizar ações de mobilização nos territórios para fortalecer a cadeia produtiva em restauração da região e implementar a recuperação de áreas utilizando metodologias de baixo custo.
“São ações que visam diminuir a expansão dessas fronteiras de desertificação que cada vez mais vêm sendo observadas na Caatinga”, endossa Joaquim. O Projeto de Recuperação de Áreas Degradadas na Chapada do Araripe acontece em parceria com a ONG Aquasis e conta com apoio do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), projeto GEF Terrestre, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Ministério do Meio Ambiente e Governo Federal. Saiba mais.




