Hoje, 20 de novembro de 2024, pela primeira vez é feriado nacional que relembra o dia da consciência negra. A data faz alusão à morte de Zumbi dos Palmares, ícone da resistência negra no Brasil-colônia, e hoje, traz o significado de relembrar a contribuição e história de pretos e pretas para nossa formação histórica, econômica e social.
Verdadeiramente, desde a morte de Zumbi dos Palmares, é preciso reconhecer que em diversos âmbitos sociais, houve avanços na inclusão de pretos e pretas no País. Há ainda de se lembrar que tais avanços em políticas públicas de inclusão, representatividade e diversidade – por vezes sob questionamento e risco de retrocesso – são também parte de um esforço necessário, para uma população inteira que passou 388 dos 524 anos desde a chegada de europeus a este território, completamente privada de direitos e mesmo da dignidade humana. As consequências disso se estendem até os dias atuais, refletindo na atual realidade social brasileira. Apenas para exemplificar, pretos e pretas, apesar de somarem mais de 55,8% da população brasileira e 54% da força de trabalho no Brasil, ocupam menos de 30% de posições gerenciais no mercado de trabalho, com um ganho mais de 40% menor do que os colegas brancos nas mesmas posições, segundo o IBGE.
Especificamente em questões ambientais, se confirma outro efeito da realidade social brasileira: A população negra, com destaque para as mulheres negras, estão entre as populações mais vulneráveis aos efeitos negativos das mudanças climáticas. Em sendo maioria nas camadas sociais mais fragilizadas, há uma tendência de que o acesso à moradia, saneamento básico, serviços e estruturas de mitigação para eventos climáticos extremos seja dificultado. Nesse contexto, o conceito de racismo ambiental é aparente, trazendo à tona uma expressão das vulnerabilidade de grupos como pretos, pardos e comunidades tradicionais.
Nesse contexto, é importante considerar também a nuance racial no momento de tomada de decisão As instâncias de controle e participação social, e sobretudo, desenho de políticas públicas, não refletem esta necessidade. Nas instâncias estratégicas de atuação, gestão e tomada de decisões chaves, pretos e pretas estão sub representados. A mesma situação se constata ao se verificar a atuação na ponta – Mesmo em instituições destinadas a atuar em temáticas ambientais, a participação de pretos e pretas é majoritária no contexto operacional, sendo responsáveis por ações de campo ou ações-fim (produtores de mudas, brigadistas, plantadores, educadores ambientais, equipe de campo) havendo pouca representatividade em instâncias de gestão e tomada de decisão estratégica.
Diversos fatores explicam este cenário, no entanto, ao se trazer à tona a realidade que se impõe sobre a questão, nota-se a urgência de incluir diversidade e representatividade em todas as instâncias do debate e ação sobre pautas ambientais no País. Para além disso, buscar formas de viabilizar contribuição de pretos e pretas em todos os níveis de atuação, visando, para além da simples representatividade e inclusão, a valorização do recorte racial como aspecto-chave no contexto do desenho de ações práticas voltadas à pauta ambiental.
Convido a tod@s a pensar juntos: Como posso inserir diversidade racial nas ações ambientais de minha instituição?
Joaquim Freitas
Preto, Nordestino e Coordenador Geral do Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste




