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Projetos de restauração executados pelo CEPAN priorizam a participação feminina

Iniciativas no Espírito Santo e em Pernambuco unem restauração ambiental e empoderamento feminino, promovendo inclusão e impacto social positivo

 

O Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste (CEPAN) tem se destacado na execução de ações de restauração ecológica em diferentes biomas e regiões do País. As iniciativas buscam não apenas recuperar áreas degradadas, mas também fortalecer a presença das mulheres em processos de tomada de decisão e execução de projetos de restauração. Recentemente, dois projetos tiveram participação majoritariamente feminina, um deles realizado no norte do Espírito Santo e outro no Agreste de Pernambuco.

 

No Sudeste do País, o projeto realizado em parceria com a Conservação Internacional Brasil (CI – Brasil), voltado para a restauração da Mata Atlântica, atuou no município de Pinheiros, no Espírito Santo. Desde a coleta de sementes até o plantio, as mulheres desempenharam papel central. Joaquim Freitas, coordenador geral do Cepan, detalha como as redes de coletores de sementes foram fundamentais para o sucesso dessas ações e da participação feminina.

 

Os fornecedores de sementes que contribuíram com o projeto foram a Coopyguá (Cooperativa dos Agricultores Tupiniquim e Guarani de Aracruz) e o Viveiro Primaflora (que atua com comunidades Pataxós no extremo sul da Bahia). “Quase 80% dos coletores são mulheres indígenas. Adquirimos com eles quase 300 quilos de sementes nativas, com o pagamento direto aos coletores desse insumo”, afirmou Joaquim.

 

De acordo com Sofia Zagallo, analista de projetos do Cepan, a maioria da presença de mulheres na atividade de coleta de sementes é uma realidade em várias redes de coletores por todo o País. “Vários dos nossos projetos foram voltados para a criação e estruturação de redes de sementes, que geralmente possuem uma grande maioria feminina de coletoras. É um dado inclusive nacional”. Ela relata que uma das redes com que o Cepan trabalhou na formação e estruturação era composta por 25 mulheres. Na experiência dos grupos de coletores que trabalham com o Cepan, em média, apenas um quinto dos coletores são homens.

 

 

Na execução do projeto, que envolveu a semeadura direta, técnica em expansão no Brasil, o primeiro desafio foi identificar mulheres daquela região interessadas em trabalhar inclusive no momento do plantio. A equipe mobilizou três mulheres (Zaine Gomes, Ana Paula Imaculada e Wanderleia Almeida) que participaram ativamente de toda a preparação, desde a pesagem e separação das sementes até a sua distribuição e plantio. O processo, que aconteceu entre novembro e dezembro de 2024, culminou no plantio de 20 hectares de Mata Atlântica, com resultados satisfatórios de produtividade e estabelecimento do plantio em campo.

 

O projeto de restauração ecológica realizado no município de Belo Jardim, em Pernambuco, na região da Caatinga, teve como desafio a recuperação de seis nascentes, pertencentes a uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), que está em processo de criação da Reserva Ambiental Energia das Nascentes. O foco do trabalho foi, além da restauração da vegetação nativa, a inclusão de mulheres no processo, com o objetivo de empoderá-las economicamente e socialmente. O projeto foi realizado em parceria com a Acumuladores Moura S/A, instituição parceira do Cepan para atividades de conservação e restauração desde 2020.

 

A recuperação de nascentes que abastecem o Açude do Bitury, responsável pelo fornecimento de água para Belo Jardim e região, foi marcada pela forte participação feminina. Quatro mulheres da região atuaram ativamente no projeto: Cecília dos Santos, Ana Paula Silva, Daiane Cristina e Jaine de Melo. Elas realizaram tarefas como preparo do solo, abertura de berços e plantio de mudas. Em duas semanas, foram realizados plantios nas áreas de entorno de 6 nascentes localizadas na reserva, reforçando o compromisso com a sustentabilidade e o protagonismo das mulheres nas ações ambientais.

 

 

Além dos bons resultados no campo, os projetos também geraram impactos sociais positivos. Isso porque a inclusão das mulheres nessas atividades ajuda a fortalecer a segurança alimentar e o empoderamento local. “A participação delas tem gerado resultados de produtividade mais altos, e também tem promovido um impacto social importante”, disse Joaquim, reforçando a relevância da inserção das mulheres no processo de restauração.

 

 

A inclusão das mulheres foi uma prioridade destacada pela equipe, que reconheceu o forte vínculo delas com a responsabilidade pelo lar e pela segurança alimentar da família. Nos dois projetos, a presença masculina foi limitada a tarefas específicas em que a identificação de mulheres não foi possível, como na operação de alguns maquinários com os quais a população local ainda não tinha familiaridade.

 

Na experiência de Belo Jardim, por exemplo, além de todas as mulheres que participaram terem sido remuneradas, há ainda um elemento diferencial. Nesse projeto houve o direcionamento de que elas tivessem contas bancárias em seus nomes, como medida de empoderamento e autonomia financeira. O projeto, portanto, além de restaurar a vegetação nativa e recuperar nascentes vitais para a região, também promoveu o empoderamento feminino, criando oportunidades para que as mulheres pudessem gerir sua própria renda e melhorar sua independência.

 

ENTRE A PERCEPÇÃO E A REALIDADE

 

Joaquim Freitas, coordenador-geral do Cepan, destaca que, embora a restauração florestal seja erroneamente vista como uma atividade predominantemente masculina, as mulheres têm sido essenciais em várias etapas do processo, como na coleta de sementes e na produção de mudas, onde elas são a maioria.

 

No entanto, ele observa que ainda existe uma resistência cultural, com a ideia de que as mulheres não têm capacidade física para o trabalho de campo, como o plantio. Uma percepção equivocada diante dos resultados dos projetos. “As experiências que a gente tem mostram que, na verdade, as mulheres têm sido mais comprometidas e gerando melhores resultados de produtividade. Essas iniciativas mostram que elas podem se igualar ou até superar a atividade dos homens no campo“, afirma.

 

O coordenador geral do Cepan também aponta que as mulheres se destacam pela disciplina e compromisso. As ações de restauração desenvolvidas pelo Cepan são um exemplo de como a integração de práticas ambientais sustentáveis pode ser aliada à promoção da equidade de gênero.

 

A inclusão de gênero é um dos princípios que perpassam todas as atividades do Cepan, segundo Sofia Zagallo. “O Cepan é uma instituição que pensa e implementa a inclusão de gênero nas ações de restauração de várias maneiras. Quando a gente pensa na cadeia produtiva da restauração, percebemos que as mulheres podem sim ter um protagonismo. A inclusão delas nas atividades de coleta de sementes, por exemplo, é uma ferramenta de empoderamento e de geração de renda, de aumento de possibilidades para que elas atuem na cadeia produtiva da restauração florestal, trazendo resultados significativos de equidade de gênero nas ações de restauração”.

 

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