Restauração do Corredor Ecológico Pacatuba-Gargaú foi realizada com uso de sementes nativas coletadas pela rede de coletores recém criada em Pernambuco, fortalecendo a biodiversidade e a economia local
Nos dias 26 e 27 de setembro de 2024, o Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste (Cepan) realizou uma ação estratégica de restauração florestal em uma das áreas mais emblemáticas da Mata Atlântica paraibana: o Corredor Ecológico Pacatuba-Gargaú. Essa área conecta dois importantes fragmentos de Mata Atlântica pertencentes a Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs): a Fazenda Pacatuba, localizada no município de Sapé, e o Engenho Gargaú, cuja sede está em Santa Rita.
A atividade consistiu no plantio de 5 hectares por meio da técnica de semeadura direta, utilizando uma mistura de mais de 750 kg de sementes nativas, popularmente conhecida como “muvuca”. Essa técnica envolve o plantio de sementes diretamente no solo, proporcionando diversas vantagens em comparação ao plantio de mudas. Entre os benefícios, destacam-se a maior rapidez na implantação, o menor custo e os ganhos socioeconômicos para coletores de base comunitária. A escolha da semeadura direta para esta intervenção foi estratégica, pois, além de ser mais eficiente em termos de custo-benefício, permite uma germinação mais natural e resiliente das espécies, contribuindo para o fortalecimento da biodiversidade local.

As sementes utilizadas foram coletadas em áreas de Pernambuco e Paraíba, com destaque para a participação da rede de coletores Maracajá Sementes Nativas, localizada em Lagoa dos Gatos (PE), que forneceu parte significativa do material. A Rede Maracajá, criada em 2023 com apoio do Cepan, WWF-Brasil e SAVE Brasil, é a primeira rede de sementes florestais da Mata Atlântica no Nordeste acima do Rio São Francisco. Formada por moradores da zona rural, quilombolas e assentados, a rede não apenas atende à crescente demanda por sementes nativas, mas também gera renda para as comunidades envolvidas. Em sua primeira coleta, a rede comercializou 53,5 kg de sementes, beneficiando diretamente oito coletores, que receberam uma média de R$450 cada um, com potencial de gerar ainda mais renda em pedidos de compras futuros.

A ação faz parte do Programa de Restauração Florestal do Cepan, um dos mais abrangentes do Nordeste, com foco no fortalecimento da cadeia produtiva da restauração, recuperação de áreas degradadas e geração de oportunidades socioeconômicas para comunidades locais. Desde 2017, o Cepan já restaurou mais de 700 hectares em seis estados brasileiros, plantando cerca de 2,5 milhões de árvores.
Segundo Sofia Zagallo, analista de projetos do Cepan, a parceria com a usina Japungu, que cedeu a área para o plantio e forneceu infraestrutura e mão de obra, foi essencial para o sucesso da operação. “A usina disponibilizou o terreno e parte da logística, como tratores e ferramentas. Já as sementes foram adquiridas da Rede Maracajá, uma iniciativa nossa que vem fortalecendo a coleta de sementes nativas na região. Essa primeira compra deles foi um marco importante, e parte dessas sementes foi destinada a esse plantio na Paraíba”, explica Sofia.

Além de contribuir para a conservação da flora local, a restauração é importante para a proteção de espécies ameaçadas de extinção, como o Macaco-Prego Galego (Sapajus flavius) e o Guariba de Mãos Ruivas (Alouatta belzebul). Durante o plantio, a equipe do Cepan inclusive avistou alguns indivíduos de Macaco-Prego Galego, reforçando a importância dessas ações para a preservação da biodiversidade.
“O Cepan já implementou mais de 480 hectares de restauração na paisagem, utilizando diversas técnicas de restauração, como a semeadura direta (muvuca), o plantio de mudas e a condução da regeneração natural. As áreas restauradas vão contribuir para a melhoria da conservação das espécies de fauna e flora da região, além de melhorar a conectividade entre os remanescentes florestais na paisagem. Durante o plantio, avistamos o macaco-prego galego (Sapajus flavius), espécie criticamente ameaçada de extinção, reforçando ainda mais a importância desse trabalho”, destacou Joaquim Freitas, coordenador geral do Cepan. A condução da regeneração natural combina o plantio ativo com a restauração passiva. Nesse método, são realizadas intervenções para auxiliar a recuperação da vegetação nativa de forma natural, removendo fatores de degradação que possam prejudicar seu desenvolvimento.

O Programa de Restauração Florestal do Cepan não se resume apenas à recuperação de áreas degradadas. Ele também atua na capacitação de comunidades tradicionais e agricultores, promovendo alternativas sustentáveis de geração de renda e inclusão social. Em paralelo às atividades de restauração, o Cepan tem investido no monitoramento das áreas restauradas, garantindo que as técnicas aplicadas sejam eficazes a longo prazo.

Com aproximadamente 2.000 hectares ainda a serem restaurados para a consolidação do Corredor Pacatuba-Gargaú, o Cepan segue firme no propósito de restaurar ecossistemas e promover a sustentabilidade socioambiental. A semeadura direta realizada em setembro representou mais um passo nesse esforço de restauração da Mata Atlântica paraibana.




